Pelas Ruas de Santa Tereza

Um dos mais antigos de BH, o bairro  é tradicional por manter construções do início do século XX e ter sido palco de movimentos culturais, como Clube da Esquina

Do Jornal Impressão
Quando um morador do bairro Santa Tereza é perguntado, pela primeira vez, se mora em Belo Horizonte, responde: “não, moro em Santa Tereza”. Isso é o que se ouve nas rodas dos bares para enfatizar que o bairro é considerado um local de características próprias. A região tem cerca de 11 mil moradores, fachadas com arquitetura do início do século XX e um estilo de vida que lembra uma pacata cidade do interior. “Ave Maria” tocando na torre da igreja, ruas de pé de moleque, feiras, bandas, coreto, quartel e muitos botequins, são algumas características da praça central de Santa Tereza, conjunto inexistente em outros bairros da cidade.

O cenário do bairro contribui para um jeito de viver culturalmente rico. Afinal, desde 1930, nele, são promovidas diversas atividades culturais, esportivas e, principalmente, musicais. Vários grupos de renome tiveram origem em Santa Tereza, como os artistas do “Clube da Esquina”, do Sepultura e do Skank.

Foi o “Clube da Esquina” que desencadeou a vocação musical que ultrapassou os limites geográficos e associou o bairro ainda mais a música. O “clube” surgiu numa esquina comum: rua Divinópolis 136, onde morava Márcio Borges, um dos integrantes, que descreve, em livro, como aquele “ponto de encontro” faz parte da vida de muita gente.

Em “Os sonhos não envelhecem – Histórias do Clube da Esquina”, Márcio Borges conta fatos entre 1960 e 1980 e, principalmente, a forma espontânea como surgiu a turma dos irmãos Lô e Marilton Borges, com Milton Nascimento, Toninho Horta, Beto Guedes e outros artistas. Convivência que aglutinou talentos e desencadeou amizades que estimularam projetos musicais e discos como “O clube da Esquina I” (1972), referência da música popular brasileira. No álbum “Contos da lua vaga” (1981), Beto Guedes faz referências à vida pelas ruas do bairro, na letra da música “Tesouro da Juventude”, de Tavinho Moura e Murilo Antunes.

Origens e urbanização

A planta oficial da construção de Belo Horizonte, idealizada em 1895 por engenheiros como Aarão Reis e “Hermillo Alves”, dividiu a cidade em seções urbanas, dentro do perímetro da avenida do Contorno, e seções suburbanas, em volta deste perímetro. O bairro Santa Tereza surgiu entre estas áreas, destinadas a núcleos agrícolas. Era o “Núcleo Colonial Américo Werneck”, sem infra-estrutura imediata, mas com ruas desenhadas. A colônia agrícola era uma das cinco criadas para abastecer a capital com produtos hortifrutigranjeiros, mas o povoamento acelerado acabou incorporando-a a cidade que, em 1912, tinha 40 mil habitantes.

Mas o início da ocupação urbana de Santa Tereza está ligado, principalmente, ao edifício militar, que é a maior referência do bairro: os prédios, onde atualmente estão o Colégio Tiradentes e o 16º Batalhão da Polícia Militar. Estrutura que possibilitou a realização de muitos eventos, desde 1917, quando foi instalado o primeiro batalhão do Exército da cidade. Em 1920, o grupo uniu-se ao 58º Batalhão de Niterói e transformou-se no 12º Regimento de Infantaria, transferido em seguida para os prédios da praça da Estação.

Posteriormente, foi instalado, na praça Duque de Caxias, o 5º Batalhão da Força Pública que, em 1924, enviou soldados a São Paulo para combater a Coluna Prestes. Hoje, algumas ruas do bairro possuem nomes em homenagem a muitos destes combatentes como Tenente Vitorino, Tenente Freitas e Capitão Procópio. Na mesma época, foi instalado, no prédio, o 5º Batalhão da Polícia Militar, que permaneceu mais de 40 anos no bairro. Em 1972, foi substituído pelo 16º BPM, atualmente responsável pelo policiamento da região.

Trincheiras da boemia

Segundo o jornalista Luiz Góes, morador da rua Salinas, pesquisador e editor de vários livros sobre o bairro, não foram achados documentos que justifiquem a razão do santo nome. De acordo com depoimentos de antigos moradores, Santa Tereza se deve a algumas similaridades com o bairro de mesmo nome no Rio de Janeiro.

. Os frequentadores do lugar são artistas, jornalistas, políticos e, eventualmente, os integrantes dos conjuntos Sepultura, Skank e do “Clube da Esquina”.  
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Foto: Gilson M. Souza

Autor: Alice Licínio e Paulo Sérgio Diniz