Região Leste de Belo Horizonte

Área: 84.32 Hectares  / População: Cerca de 16 Mil Moradores  /  7000 homes/  9000  mulheres 

Taxa de Analfabetismo: 0,9%  / Total de Domicílios: 6.330  /  Estabelecimentos Comerciais: 166

Hoje, Santa Tereza é amada pelos belo-horizontinos por sua tradição cultural e boêmia. Mas seus primeiros anos não eram assim...

O bairro começou como hospedagem dos imigrantes que chegavam à nova capital e depois, abrigou um gigantesco hospital para tuberculosos, o  que espantava turistas...

Fotos: João Carlos Martins / Acervo Luis Góes

Por Heberth Xavier / Revista Encontro

                                  Belo Horizonte vai completar 115 anos em dezembro. Dois meses antes, o bairro Santa Tereza fará 114 anos. Desde de que foram fundados, muita coisa mudou. BH deixou de ser Arraial para virar uma metrópole com mais de 3 milhões de habitantes. Santa Tereza deixou de ser o bairro dos imigrantes que chegavam à nova capital mineira para virar tradicional. A cidade cresceu muito, ganhou inúmeros arranha-céus. Santê, como é carinhosamente chamado pelos moradores do bairro – e também por quem mora no restante da cidade –, também cresceu, virou pólo cultural, mas não permitiu sua descaracterização total. Do fim do século XIX até hoje, a capital e o Santa Tereza viram, de longe (felizmente), duas guerras mundiais, crises econômicas e várias mudanças de governos, algumas, diga-se, traumáticas. Muitas mudanças, mas é possível dizer que Santa Tereza é provavelmente o bairro que melhor guarda sua história na capital. Alguns sumiram, mas continuam lá os velhos casarões. Pouquíssimos (?)  arranha-céus. E, mais importante, uma população que se orgulha da história.

Não apenas os moradores do bairro. Os belo horizontinos parecem ver nele uma região que conseguiu resistir ao progresso sem limites. Sendo rigoroso mesmo, Santa Tereza nasceu até mesmo antes da capital. O bairro abrigou italianos, espanhóis e portugueses que aqui chegaram para a construção de Belo Horizonte. A partir de 1896, o governo criou cinco colônias de imigrantes na capital. Uma delas, a  Ribeirão da Matta, tinha 144 hectares, dividida em 75 lotes com 10 mil a 20 mil metros quadrados cada um. Eram grandes, equivalentes a dois quarteirões. O nome da colônia mudou várias vezes: de Ribeirão da Matta, virou Córrego da Matta. Daí, passou Américo Werneck, numa homenagem ao ex-diretor do Departamento de Terras e Colonização         A primeira construção foi um prédio de dois andares, uma espécie de hotel para os imigrantes. Hoje, a construção é o Colégio Tiradentes, na pracinha do Santa Tereza (praça Duque de Caxias).

                                Antes do colégio, abrigava a sede do 5º Batalhão da Polícia Militar. A cidade, quando fundada, havia sido dividida em áreas urbanas e suburbanas. As urbanas ficavam dentro do entorno da então avenida 17 de Dezembro, hoje conhecida por t odos como Contorno. Assuburbanas, em volta da mesma – Santê estava lá. O bairro era favorecido pela proximidade com a “área urbana”. Até que, em 1910, ficou pronto o Hospital do Isolado, onde era o Mercado Distrital, atualmente fechado. De Bairro dos Imigrantes, como já era conhecido em BH, o bairro passou a ser chamado de Região do Isolado. O hospital tratava pacientes psiquiátricos e tuberculosos. Para muita gente experiente no bairro, essa formação ajudou a reunir uma população mais voltada para si mesma em Santa Tereza. “As pessoas cuidavam mais do bairro, porque existia essa coisa de ser isolado”, lembra o fotógrafo José Góes, 74 anos, um dos mais famosos ‘santa-terezenses’ e morador do bairro desde 1947. Veio, então, o bonde. Com ele, o restante do bairro, que estava mais afastado  da Contorno, ganhou loteamento pela prefeitura e foi ocupado. Em 1926, o bonde já chegava à rua Mármore, a principal de Santa Tereza, que faz margem com a praça. Nos anos 1940, o bairro passou a contar com suas principais ruas calçadas e iluminadas. Veio o cinema, em 1944. Santa Tereza já era Santa Tereza. A proximidade do centro estimulou e a ocupação e a diversificação do comércio. Uma coisa chamava a atenção desde o início: o bairro não tem grandes avenidas. As ruas estreitas, dessa forma, favoreciam a comparação com as cidades históricas, um atrativo. A comparação com Ouro Preto é inevitável, por exemplo, na vista aérea da igreja de Santa Terezinha. Mas nem tudo eram flores… Para os moradores, por exemplo, faltava água até os anos 1960, como lembra José Góes. “A prefeitura trazia a água do bairro Taquaril”, afirma. “Não era um bairro bom para morar por esse motivo.” Talvez seja um exagero, mas de fato muita gente passou raiva e desconforto por conta disso. Diz a lenda que pessoas enchiam as caixas das casas para alugá-las. O interessado chegava, via tudo normal e fechava o contrato. Só depois percebia o problema, quando a caixa na água acabava. Quando a água do Taquaril demorava, moradores chegavam a alugar carros-pipa para encher as caixas de suas casas. Não se sabe bem por quê, mas talvez pela proximidade do centro, talvez pela característica das ruas, sem largas avenidas, ou talvez pelas dificuldades que isolavam sua população, Santê começou a virar um bairro cultural. A primeira sala de projeção do bairro era do morador Thiers Bonconselho, na rua Mármore. Reunia os moradores para ver filmes e conversar. Thiers, que tinha uma coleção de filmes em preto e branco, não cobrava nada. Pouco mais tarde, em 1944, nascia o Cine Santa Tereza, na praça Duque de Caxias. Autoridades, comunidade e a diretoria da Cinemas e Teatros de Minas Gerais foram à solenidade de inauguração.O filme exibido: O Conde de Monte Cristo, baseado na famosa obra de Alexandre Dumas. Chegou a ter, nos tempos áureos, sessões às 10h, 14h, 19h e 21h.

A concorrência da TV, porém, levou ao fechamento, como ocorreu nos outros cinemas de bairros de BH. A partir de 1980, vários empreendimentos foram tentados na área: a população e quem mora há mais tempo na cidade se lembra do Santa Tereza Cine Show, do Casablanca, da Fábrika de Macarrão. No fim dos anos 1990, abrigou a boate Trash. Hoje, o espaço é pouco utilizado – nos festivais de cinema que ocorrem no bairro são exibidas projeções lá. O gosto pela cultura levou à criação do Ideal Clube Teatro Escola, o primeiro centro teatral da capital. Até 1951, não havia sede. Os ensaios e as apresentações eram feitos nas casas dos associados. O prefeito da época, Otacílio Negrão de Lima, doou então o terreno, na rua Estrela do Sul, bem pertinho da pracinha. Nome da peça de estréia no novo espaço: O Julgamento de Judas. Na pracinha houve ainda o Cine-Grátis. Crianças e adultos se aglomeravam para assistir aos filmes, a maioria faroestes, desenhos animados e películas de Charles Chaplin. Nos intervalos, a prefeitura passava comerciais exaltando seus feitos. O historiador Luis Góes, um incansável divulgador da história de Santa Tereza, relembra, em um de seus livros sobre o bairro: “Era um programa de grande atração para os moradores do Santa Tereza e de outros bairros também”.

 O Cine-Grátis da praça Funcionou durante 11 anos. Ex-freira, Ephigênia Macária Ferreira não viveu tanto dessa efervescência cultural do bairro. Mas conhece muito bem o Santa Tereza. Mora lá há 54 anos. Nascida em 1935, ela se lembra principalmente do bonde. “Parava na porta da minha casa, na Mármore”, afirma. “Era um transporte fabuloso, seguro e muito mais limpo que os de hoje. E fazia todo o trajeto por 10 centavos.” Ela lembra também as serestas na Duque de Caxias. Aposentada como enfermeira, a Dona Ephigênia é muito conhecida no bairro. Hoje, ela lamenta a insegurança. “Antigamente, aqui, as pessoas fechavam as casas apenas usando uma tramela um pedaço de madeira, muito usado nas casas antigas, que servia como tranca”, diz ela. “Todo mundo se conhecia e confiava um no outro, era outra época.” Sim, outra época, mais romântica. Santê era o símbolo, em BH, do que no país ficaria conhecido como anos dourados. O presidente da época, por sinal, era Juscelino Kubitschek, visitante ilustre de algumas festas do bairro. Não é à toa que os moradores antigos do bairro enchem a boca para fazer elogios. Lembram a falta d’água de antes, a insegurança de hoje; o fim dos cinemas; o isolamento dos anos do hospital. Mas é impossível encontrar quem não goste de lá, pois afinal, " Felicidade, mora em Santa Tereza !

 


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